Poema para um Pombo anônimo






Pode, a princípio, parecer deveras piegas escrever um poema para um pombo morto. Pois bem, é com esse tipo de pensamentos que paramos de olhar nos rostos uns dos outros e esquecemos que em muitos cantos da cidade poeirenta há, não só pombos mortos, mas indivíduos moralmente mortos e é disso que esse poema fala em sua real essência. O pombo aqui nada mais é do que uma representação para a legião de imundos que habitam qualquer cidade grande e ajudam a criar esse enorme panorama de contrastes. Diferenças e indiferenças. “Nada é mais assassino do que a ignorância.”







Versos Moribundos
(Vozes da Sarjeta) Guto

I
As ruas não mais irradiam a serenidade
Donde o pombo tombou podre ante a noite.
Os vermes que lhe brotam do seu minúsculo ventre
Querem me oferecer suas respostas pegajosas.
Ninguém os bem quer, por isso devoram
Toda carne ao alcance da sua fúria.
II
Minha serenidade tombou com o pombo
E a sua carne senil igualmente apodreceu.
Por isso penso em minha alma que,
Com asas obscenas, como as do morto pombo,
Também não pode para os céus voar,
Para olhar para esses milhares de faces
Hapáticas nesse desespero decadente
Sob o qual nos mergulhamos
Dia a dia em mediocridade e aceitação religiosa.
III
Juntos, devoramos o corpo inerte do pombo
Em teu bico fúnebre não mais brotam cantigas quais quer.
Nada que lembre a altivez áurea do outrora embriagado.
E só vejo a sua volta o barulho estério se chocando
Com a estupidez da cidade indecisa.

Comentários

  1. As minhas cordiais saudações,

    Ontem, quando dirigia meu carro deparei-me com um pombo caído no meio da via, já morto.

    Encostei a viatura, e como não gosto de vêr animais cilindrados pelos pneus que acidentalmente, ou de pontaria propositada pisam e voltam a pisar até os animais [ave,cão,gato, esquilo etc.] virarem folhas de cartolina (cartão de desumanidade!),fiz isto:

    Com uma mão o peguei, acarinhei, e enterrei ao lado da estrada, junto à placa toponímica do sítio onde o pombo perdeu a vida.

    Com a outra mão, gravei com o celular, o que fiz.

    Acho que vou 'postar' isto tudo no meu blogue.

    Pesquizei um poema para honrar a avezinha que sepultei e, encontrei seu blog, seu poema, que gostarei de publicar respeitando sua autoria.

    Certamente que não irei 'contrariá-lo'. Fiz-me seu seguidor de blog, pois despertou-me interesse acompanhar o seu trabalho.

    Bem haja!

    [http://alfobre.blogspot.com]

    Aquela abração
    do
    César Ramos

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  2. Olá Guto,

    Aqui estou de novo, e desta vez para lhe agradecer as amáveis palavras que não mereço de todo.

    Agradecer também, sua permissão de passar no meu blog o seu Poema...

    Já era para estar pronto o post. Aliás, o texto está dentro da minha cabeça!... apenas devido a algo estranho,... o meu 'alfobre' teve 'areia' na engrenagem,... e as coisas não estavam saindo direito... e eu, faço questão que o seu trabalho surja sem incidentes de percurso, provocado por eventuais 'ataques' de piratinhas boicotadores, saberá Deus porquê, o prazer de estragar o trabalho dos outros...

    Acho que depois da intervenção técnica para examinar o que se terá passado, poderei ter confiança de não arrastar ninguém, nesta coisa 'chata' das viroses da informática ...

    Cordiais saudações, e um abraço
    do
    César

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