O Sansara Interrompido
A Primeira Postagem do ano de 2010 chega a ter um título paradoxal com o fato de estarmos “re”-começando mais um ano. Sansara, que no budismo é o ciclo de repetidas mortes e renascimentos que temos que passar até atingirmos o Nirvana, no título desse poema é dito como interrompido. É ai que se encontra o choque das coisas, começamos mais um ano, mas meu poema interrompeu o sansara queimando esse corpo podre para a carne não poder voltar. Talvez tudo isso não passe do mais puro simbolismo, representado pela colocação do corpo como a morada dos desejos e instintos pecaminosos e que devesse ser queimado para que as tentações da carne não caiam mais sobre ele. Mas a coisa não é assim tão fácil, se assim o fosse, o suicídio, ou até mesmo o assassinado seriam formas de iluminação. Mas as coisas não se passam assim no budismo e também não é só isso o que o poema mostra. O fogo que queima no final é puramente simbólico, talvez seja a falta de força de alcançar o espiritual por si só, por isso é que há esse pedido de “Queimem nosso corpo podre (...)”, está mais para um pedido de socorro, um pedido que pode ser externo, aos outros, ou interno, ao seu eu interior. Mas quem seriam esses outros que o acompanham? Lembranças, fantasmas, amigos imaginários? Quem sabe?
Apreciem. Feliz 2010.
O Sansara Interrompido (Guto)
Essa é a noite das alegorias do desespero,
Das almas que não querem dormir
E dos garotos ávidos pela diligência suja
Transbordante na suntuosa mansão
Onde habita minha alma suja
- Meu corpo.
Essa é a noite de despir a roupa ritualística
E caminhar pela floresta em silêncio,
Somente prestando a atenção
Em nossos irmãos selvagens
- As feras.
O amor delas é o que me acalenta
E eu retribuo à altura
Soprando a canção que não quer cessar.
Queimem nosso corpo podre
Para a carne não poder voltar.


Você me lembrou Augusto dos Anjos.
ResponderExcluirSaudaç~çoes Florestais !
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