O Vidente - parte II (Guto)
(...) no fundo, não era o fato dela falar de amor. Era outra coisa, mas ele não sabia o que era, talvez algo do futuro, algo que ele não conseguia capitar, mesmo com seus olhos de vidente.
A moça soltou um suspiro profundo, como se todo o pesar acumulado fosse liberado com ele.
Ele viu que ela trazia algo nos seus braços e que ele só percebia agora. Era o velho violino. Seus olhos brilharam incógnitos, e ela simplesmente percebeu o que ele queria. Posicionou o instrumento e começou a improvisar algo que lembrava o Canon em D maior de Pachebell, entretanto soava de maneira diversa, desprovido de sentimentos, de pathos e de temporalidade. Soava milenar.
Ele se sentiu extremamente exausto com tudo aquilo, como se sua energia fosse de alguma maneira drenada pela maneira fria como aquela música era traçada no ar.
De repente ela parou de tocar, olhou nos olhos dele e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, disse:
"Sabe, Lúcius? Tudo isso é somente pelo fato da inexistência de Deus"(...)

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