Trilha Cachoeira do Urubu

Diário de Trilhas n° 01
Cachoeira do Urubu 
Guto



Somos quatro pessoas num Citroën C3 não tão novo assim, mas bem conservado... Nos dirigimos num sábado qualquer para o recôncavo baiano. 

O que nos guia!? O que está no coração de cada um!? Talvez nem nós mesmo saibamos...  O ponto de intercessão nessa jornada é querer chegar na tal cachoeira e um deles serve de cicerone.... Já que supostamente conhece o lugar como a palma da mão.

O carro é o corpo... Os tripulantes são a alma... E o veículo vai onde a alma o levar. 

Chegar a Santo Amaro da Purificação foi fácil.... "Fácil demais para o meu gosto"... Não lembro de ter pensado isso na hora... Mas poderia tê-lo feito...  E isso cairia bem na introdução do filme que seria feito sobre nossa aventura.

Antes que eu solte um spoiler... Deixe-me seguir com o relato da aventura... Afinal.. Acabou se tornando uma aventura... Nosso guia não lembrava o local onde ficava a cachoeira.. Estávamos um tanto perdidos... E o que podemos fazer quando nos encontramos perdidos na vida!? Simples... Entrar em desespero!

BRINCADEIRA!... Embora possamos fazer isso.... E essa seria a saída irracional...  O melhor numa situação na qual encontra-mo-nos perdidos é  buscar respostas... e para achar essas respostas precisamos fazer perguntas(lesson one) .

Foi o que acabamos fazendo... Perguntamos a quem poderia nos dar as respostas... Nesse meio tempo pudemos aprender (lesson two) que as pessoas só dão o que elas têm...  Desde informações pertinentes... Até ciladas (possivelmente mal intencionadas) que, na pior das hipóteses, só retardaram o nosso caminho. Algumas dessas ciladas foram encontradas.... Mas no final das contas..... Chegamos lá....  Ou quase lá. 

Estávamos na entrada da trilha... Devíamos abandonar o veículo e entrar na mata...... Para nossa surpresa... O guia não lembrava a trilha... Quero dizer... Ele tinha uma vaga lembrança e isso estava minando a nossa confiança em se embrenhar no mato e correr o risco de se perder (lesson three -  o medo paralisa).

Felizmente apareceu alguém e se ofereceu para nos levar através da trilha... E, como ele era conhecido da pessoa onde deixamos o carro guardado, podíamos ter "confiança" nele....  Com isso tivemos nossa (lesson four)...para avançar sempre estamos dispostos a abandonar um guia definitivamente ou momentaneamente para atingir os nossos objetivos.... Os fins justificatiram os meios. 

A trilha não era tão difícil.... Apesar de um trecho no qual cruzamos nos equilibrando sobre uma ponte numa linha férrea aos moldes do filme Stand by Me.  

Chegamos na cachoeira em uns trinta minutos... Depois que o guia cumpriu sua missão se despediu mandando que voltássemos pelo mesmo caminho. Nossa ligação com ele foi apenas aquela... Nos levar de A para B... Feito isso...  Acabou a nossa relação... Assim como muitas relações por aí(lesson five). 

Na cachoeira a dinâmica do grupo também seguiu com cada membro procurando seus próprios objetivos individuais... Eu procurei nadar até a queda d'água onde pratiquei alguns minutos de meditação... Um dos amigos ficou tirando várias fotos do local e de nós...  E os outros dois exploraram a região.

Mas nem por isso o grupo se desfez... Havia ainda uma força de coesão maior mantendo o grupo unido.... Que força seria essa!? Um objetivo comum... A volta para casa! (lesson six) 

Inconscientemente tínhamos a noção de que deveríamos ficar juntos ainda...  E esse era o fator que nos mantinha unidos... Por sinal, um fator inconsciente... Quando não se percebe ele...Tudo se torna mais fácil... Embora mais fantasmagórico e governados por forças ocultas..... Forças que cessam assim que X necessidade deixa de existir. Como aconteceu com a nossa relação com o guia que nos levou a cachoeira. 

Talvez dessa mesma forma as amizades deixem de existir.... Não mais existindo a necessidade inconsciente que mantinha a coesão... Quando este espírito da amizade vai embora... O grupo se desfaz... E as pessoas não passam de estranhas se cruzando na rua.... Meramente se tratando como conhecidos... Mal se olhando ou se cumprimentando.

Por esse ângulo é fácil ver como não somos tão diferentes dos animais em nossas relações "humanas".

 Estávamos juntos por motivos frágeis em comum.... Aquela aventura representava muito bem um microcosmo das uniões afetivas.... Alguém só está ali porque está lucrando de alguma forma... Geralmente a parte que sustenta essa união é a parte carente... A que precisa da presença do outro. 

"Como essa crônica ficou tão obscura assim!? "..... Vocês podem estar se perguntando.... E eu respondo..." Desde sempre...embora façamos questão de não perceber... Porque é cômodo.... Simples ".... E enquanto permanecemos assim.... Seguiremos levados por forças invisíveis.

O ponto de ruptura do grupo foi a volta pra Salvador.... Cada qual foi para as suas casas e suas obrigações... Era o fim do grupo.... A força de coesão perdeu sua influência diante da interferência de outras forças que revelaram um potencial magnético maior.

Com isso só podemos esperar a próxima trilha e que lições ela irá nos trazer. 

Namastê! 

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