Diário de Trilhas n° 05

Diário de Trilhas n° 05
Capão - Festival de Jazz 
22 a 24/11/19

Obs: Alguns fatos... Nomes de pessoas e eventos foram deliberadamente alterados por questões legais! 

Após sobreviver a oito meses de estudo intensos e passada a prova do Enem, nada seria mais justo que esse descanso (e a palavra descanso para mim tem uma conotação distinta da usual). 

Um amigo me convidou pra essa aventura na Chapada Diamantina quase dois meses antes dela se suceder... O convite foi aceito prontamente.

Havia dez anos transcorridos desde que dormi no Capão pela última vez... As coisas não haviam mudado tanto... Algumas melhorias na vila apenas... Mas a estrada de barro de acesso continuava uma aventura por si só com toda a sua rusticidade. 

Dessa vez, Josi não foi comigo...  O trabalho dela não possibilitou (Além disso.. Seria uma viagem meio Clube do Bolinha)  Acabei indo com mais dois amigos... E foi mais uma oportunidade de aquietar a mente e se afastar uma vez mais das agitações perturbadoras da cidade grande. 


A AVENTURA
O Primeiro Dia 

No meu imaginário... Ir para a Chapada Diamantina já é uma aventura por si só... Duas idas no mesmo mês fez dessa aventura uma experiência marcante e revigorante. 

Dessa vez eu não precisei dirigir... Tiago tomou o volante... Então eu pude relaxar mais e me focar nas paisagens pelo caminho. Entretanto - como ele dirige um pouco mais devagar do que eu - nós chegamos mais tarde no Capão... Por volta das 15 horas do dia 22 de novembro (embora isso não tenha sido um problema nem nada). 

Tínhamos alugado uma bela casa no meio duma floresta no Capão... Típica casa de slasher movie dos anos oitenta. Daquelas que Jason adoraria fazer uma visita à noite! 

A casa era lindinha... Mas, o desafio inicial foi chegar até a mesma.... Ela era muito escondida e todos os moradores a do Capão a quem pedíamos informações aparentavam ter um visão do espaço tempo diferente da nossa... Quando eles falavam que um local estava a uns mil metros ou a dez minutos... Geralmente era mais que o dobro disso. 

Dessa forma nos embrenhamos dentro do mato com o carro de Tiago... Passando por estradas impraticáveis com poeira pra todo lado...  Isso durou o bastante para que até  a presença humana se tornou bastante escassa... Pedir informação pra achar a casa ficou complicado e a tarde avançava.. se aproximando da noite. 

No meio da floresta a escuridão chega mais rápido e a tensão e ansiedade aumentavam. 

A leve angústia durou até que encontramos uma entrada com uma estradinha e seguimos por ela... Essa estradinha levava direto a uma casa no meio das árvores... Dirigimos até próximo à casa só pra ver um homem sair dela com uma criança no colo e gesticulando daquela maneira que os italianos fazem com as mãos sempre que algo deu muito errado. Sempre que algo deu merda! 

Sem entender nada, eu desci do carro só pra descobrir que nós havíamos passado por cima duma ponte velha de madeira e a mesma não aguentou o peso do veículo e cedeu, fazendo o carro ficar preso do outro lado... E AGORA!?

O jeito foi improvisar uma ponte nova bem ao estilo MacGyver e torcer pra gambiarra dar certo....  Mais um pouco de tensão... Mais um pouco de dúvida... De emoção... DE VIDA e conseguimos atravessar a ponte de volta com o italiano praguejando às nossas costas. 

Prometemos voltar pra concertar a ponte dele.... Mas essa promessa foi parar nas minhas dívidas cármicas que serão pagas em outra oportunidade existencial. 

Depois disso - AINDA COM DIFICULDADE - encontramos a casa.... Exaustos.... Celulares sem sinal, descarregando e nada de contato com o proprietário... A casa estava trancada. 

Pra nossa sorte havia uma casa ao lado... E uma senhora nela(com uma porrada de cachorros - Kratos, Mary James -  sim, JAMES mesmo - e um outro que esqueci o nome). Foi alí que travamos contato pela primeira vez com a dona Velhinha(nome fictício)... Um amor de senhora que tentou nos iniciar nos mistérios da manga rosa e em outro sem números de teorias da conspiração que me fizeram lembrar muito da mãe de minha ex esposa.

Dona Velhinha compartilhou a sua Internet conosco... Desse modo conseguimos nos comunicar com o proprietário da casa que nos disse onde a chave estava. 

Finalmente encontramos a chave e entramos na casa... Era noitinha já... Então tomamos banho... Descansamos um pouco e fomos para a vila curtir o primeiro dia do festival. 

A vila estava repleta de figuras peculiares... Praticantes de Yoga ao ar livre.... Artistas itinerantes... Hippies ou pseudo hippies... Vendedores de missanga... De cristais...  de flores sempre vivas... Além de restaurantes... Bares... Cafeterias gourmet (tudo o olho da cara... Kkkk)! Nesse primeiro dia não ficamos no festival até tão tarde... O cansasso do primeiro dia de aventura falou mais alto.... Estávamos quebrados e precisávamos descansar pro dia seguinte. 

SEGUNDO DIA - TRILHAS
Cachoeira da Fumaça 
Riachinho

Cedo eu já estava de pé preparando o rango enquanto os meus colegas de viagem ainda estavam morgados.


Dona Velhinha apareceu para uma visita e trouxe consigo um estojinho onde ela guardava algumas "ervas", as quais começou a preparar como se estivesse exercendo um ofício religioso... Não foi nenhuma surpresa constatar que a simpática velhinha era praticamente da antiga cultura do canabis...  E tentou me iniciar nesse ministério. Frente a minha recusa, ela perguntou se eu era polícia(kkk). E cismou que eu tinha cara de polícia! 

Dona Velhinha passou o início daquela manhã conosco, compartilhou o café da manhã e contou várias histórias e teorias da conspiração para nós. 

Depois disso... Eu e Fernando fomos fazer as trilhas que havíamos planejado pr'aquele dia. Por motivos de saúde, Tiago estava impossibilitado de realizá-las... Dessa forma ele foi encontrar alguns conhecidos na vila e aproveitou pra dar uma carona a dona Velhinha.

A trilha que faríamos inicialmente seria a da Cachoeira da Fumaça por cima... 2,5 km de subida mais 3,5 km de caminhada no topo... 6km de uma trilha que seria recompensada com uma das imagens mais lindas da Chapada(talvez do mundo). 

Acho que nem preciso comentar que aproveitei a oportunidade para umas práticas de meditação (já tornou-se mais do mesmo). 

Após a trilha da Fumaça fomos pra vila encontrar Tiago e almoçar antes de ir no Riachinho.... Pegamos carona num caminhão que nos deixou na vila. 

Todas essas práticas simples e experiências bucólicas... como a longa caminhada, o sol no pé do ouvido... Poeira como a porra entrando pelos nossos pulmões... Contato com pessoas simples.... A desaceleração da cidade grande... Andar temporariamente como cães vira-latas pegando carona e sentindo o vento frio da Chapada nas faces  sorridentes onde as únicas preocupações reais era cumprir a pauta de diversão... Relaxamento... Meditação e comunhão com a natureza era bastante energizante! 

Após breve encontro com Tiago e o pessoal dele na vila, fomos almoçar e de lá, eu e Fernando, fomos rapidamente para o Riachinho... Mais uma trilha pra finalizar o dia numa bela cachoeira de onde pudemos apreciar o por do sol antes de voltarmos pra casa. 

À noite fomos para o segundo e último dia de festival.... Apesar do dia cansativo... Eu ainda estava com energia pra aproveitar o lugar um pouco mais antes de irmos embora no dia seguinte! E foi basicamente o que eu fiz.

Nessa noite procurei colocar em prática as lições que aprendi nas aulas de  dança de salão e me diverti bastante com isso... Improvisando danças de salão ao ritmo de jazz(que estava mais pra ritmos caribenhos) com uma garota que conheci por lá! 

Em muitos aspectos... Aquele segundo dia foi um dos mais completos dentro do que eu esperava numa viagem de encontro consigo mesmo no sentido emocional... Espiritual... Mental e também Físico... Só aquele dia valeu toda a viagem.

Tentamos ficar até tarde, mas as limitações de saúde de Tiago nos fizeram regressar pra descansar... Eu também estava cansado... Dançar é gostoso... Mas cansa!

ÚLTIMO DIA - RETORNO 

Na última manhã apenas descansamos antes de pegar a estrada... Dona Velhinha apareceu outra vez pro café da manhã(nessa oportunidade sem a manga rosa - kkk). 

Após isso nos despedimos dela... Da casa... E do Capão.... Estávamos voltando pra Salvador... Quase 500km de estrada onde nos deparamos com relâmpagos.... Tempestade... Chuva de granizo... Eram os céus brindando à nossa viagem mística à sua maneira. E eu só poderia retornar cheio de gratidão por isso! Cada vez mais desapegado... Tendo os meus votos internos reafirmados  e a disposição revigorada. 

CONTINUA.... 








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