Solstício (Guto)
Enegrecida crista escarpada
Onde o sol não toca
Nem revela o mortal obstáculo.
Enrigecido músculo viril
A mão apalpa a pedra
E escala a encosta serrilhada
Com mil pedras pontiagudas
Suor no rosto
Um bela face
Só mais um rito
Como já gritei anos antes
Hoje eu repito
"Ainda estou vivo"
E bebo esse pulso negro
Que me alimenta
E chamo de irmão!
O sol não toca,
E me revelo por conta própria
Seguindo um destino que avança
Galopando um cavalo renegado
Em frenesi
Em conexão ancestral
Com o que eu digo que é meu
Mas não me pertenceu
Nem deve pertencer
Assim eu mantenho-me livre
Mergulho nesse inferno
Bebendo essa fonte obscura
Que me alimenta
E que chamo de pai.
Assim eu repito
"Ainda estou vivo"
Curvado em reverência
Diante da cotidiana onipotência
Que está em torno de mim
De forma explosiva
De modo harmônico
Em seus contrários
Pretextos pra seguir seu rumo
Galopando o corcel renegado
Nas asas dos seus sentimentos
Que o sol não toca
Nem queima
O pulso soturno
Que me alimenta
E chamo de mãe
Pois tudo é prazer e é dor.
Nessa hora eu despenco da encosta
E me estraçalho nas pedras
Transcendendo
E entendendo a cilada
O aviso e o clarão
Vivendo em dois mundos
Com apenas um sol
Que não queima
Nem revela esse ponto obscuro
Suspenso no nada
E que apenas sou eu.

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